A minha jornada ibérica na Caravana re.rural – Imersão num Novo Mundo Rural

By Marta Alter

Dedico esta jornada, à Joana, a quem devo a inspiração e o entusiasmo, principal impulsionadora da minha viagem na Caravana. Ou como diz o Jose,  “(…) é lindo e penso que é das primeiras vezes que temos mãe e filha em diferentes experiências :)”

Entre 28 a 31 de maio, eu e mais de 40 pessoas, caminhamos em sintonia com a Caravana re.rural, dinamizado a partir do Centro CO.RE, Centro de Aprendizagem Rural, situado na Aldeia de São Luís, no concelho de Odemira. Alguns de nós, incluindo eu, participamos pela primeira vez nesta jornada que para além da descoberta, incluía também o fator surpresa.

Há 30 anos a trabalhar no desenvolvimento local a partir da Abordagem LEADER (Ligação entre Ações de Desenvolvimento da Economia Rural) que ganhou luz no então espaço da Comunidade Económica Europeia (CEE), devo dizer que, o movimento de regeneração do interior em Portugal, surpreendeu-me muito, pela sua energia, consistência, inspiração e festa.

Encontrei neste grupo e organizações representadas, vários princípios, (além dos 7 em que assenta a Abordagem LEADER), que ilustram novos olhares e formas de intervenção mais robustas e adaptadas aos desafios que se colocam ao interior e espaços rurais deste País.

E começo pela importância dada ao trabalho de animação do território e ao(s) compromisso(s) celebrado(s) com as comunidades, sejam elas aldeias ou vilas, pequenas ou amplas. O que importa neste de trabalho de animação e de abordagens a partir do local, é a partilha e articulação entre estes espaços, seja por práticas diversas de sustentabilidade, seja pela implementação de tecnologias sociais ou, ainda, pela agregação de soluções integrais, para responder a desafios, diversos, multifuncionais e multidisciplinares, que se apresentam. A integração em REDE, a identificação e o mapeamento de experiências, constituem soluções colaborativas que reforçam intervenções a diferentes escalas territoriais, valorizando deste modo, lugares, pessoas, recursos técnicos e locais, conhecimento e, em última análise, os resultados alcançados, sejam eles positivos e de superação, ou tenham representado insucessos.

A par deste trabalho, as práticas que tivemos oportunidade de conhecer, evidenciam ainda outros alicerces. Destacamos a preocupação com a Regeneração e Reconexão com a Terra, ritmos e ciclos naturais, reconhecendo a nossa ligação com toda a vida, o respeito pelos ecossistemas e ambiente, e a importância que devemos dar aos recursos que partilhamos honrando o legado que recebemos e a herança que queremos deixar às futuras gerações. Associado a estes princípios destaca-se a prática de sistemas agrícolas regenerativos e a defesa dos princípios de uma agricultura sintrópica, como aqueles que se tem evidenciado, com maior capacidade de adaptação aos desafios climáticos que enfrentamos. (ver documento da PAC) e que respondem às necessidades de segurança alimentar, mais baseada nos recursos locais.

Por outro lado, o rejuvenescimento a que assistimos. O acolhimento de pessoas e comunidades que escolhem viver e trabalhar em Portugal, em particular, nas zonas rurais, encerra muitos desafios e oportunidades, mas também riscos. A importância do acolhimento destes jovens e famílias, é particularmente importante para trazer vida e energia, a territórios há muito abandonados e esquecidos pelas políticas de desenvolvimento públicas. A sua energia, capitaliza movimentos de comunidades em torno dos valores comuns, nomeadamente, na defesa do bem-estar, qualidade de vida, segurança e futuro, lutando contra decisões económicas, que embora acompanhadas de estudos de impacto ambiental, raras vezes tem em conta os impactos e as consequências sobre as respetivas comunidades, património geracional e cultural. O desafio e os riscos que se apresentam, implicam que a regeneração deva ser acompanhada e possa ser feita com equilíbrio entre os que sempre aí viveram e os que aí agora chegam, estes novos rurais.

A experiência da Caravana Rural, levou-me a reencontrar outros territórios e aldeias do interior, maioritariamente, na região centro de Portugal (Fundão, Idanha-a-Velha) e na vizinha Estremadura (Villar del Rey, Cáceres). Possibilitou-me conhecer os obstáculos que enfrentaram e que ainda se apresentam, os que superaram e como mantêm vivos os sonhos, a energia e a determinação para os alcançar, definitivamente, com muito trabalho! O documentário “Aldeias do Futuro” (https://www.re-rural.info/) testemunha o caminho da Rafaela e do Jose, até São Luís, mas também da palavra dos que aí vivem, e de diferentes abordagens e dimensões do movimento de regeneração deste lugar. Vi o documentário na companhia daqueles que participaram. Seguida de troca de opiniões, a projeção deu também para compreender que há uma certa utopia que subjaz a esta grande comunidade e rede de territórios rurais. Porque acreditar, lutar por um Mundo mais equilibrado, representado nas forças vivas de uma ALDEIA é, também, acompanhado por utopia(s).

Iniciei a viagem, levando na bagagem os 7 princípios da Abordagem LEADER, interiorizados. Regressei com uma visão mais rica do desenvolvimento local dos dias de hoje. Da necessidade de uma abordagem mais ligada à dimensão humana; de subvenções e apoios que integrem dimensões mais centradas na promoção da mobilidade e de conexão para a cocriação de soluções digitais e partilha de soluções para problemas rurais comuns, do reforço da capacitação dos cidadãos rurais para que disponham de ferramentas críticas e técnicas para liderar o desenvolvimento do seu território, e da escolha de opções que aumentem a resiliência ecológica, o combate às alterações climáticas e, simultaneamente, contribuam para reverter o declínio demográfico e o envelhecimento populacional, e garantir a qualidade de vida e sustentabilidade das atividades económicas rurais incentivando o empreendedorismo e a economia social. Dimensões que de alguma forma já são acolhidas no Pacto Rural Europeu focado no futuro das zonas rurais da União Europeia até 2040, no qual o princípio do Direito a Ficar (nos territórios rurais) é central para o desafio da coesão territorial, economia e social, europeia.

Horta, 14 de junho de 2026